Caquexia do Câncer: Qual a Importância da Condição Corporal para Pacientes Oncológicos?
Olá Pessoal, tudo bem com vocês?
Resolvi escrever um pouco sobre a caquexia do câncer porque, apesar da Oncologia ser uma área que eu gosto bastante de estudar, essa é uma condição clínica muito comum na rotina do atendimento de pacientes oncológicos e que gera demasiada debilidade física para o animal, diminuindo sua qualidade de vida. Mas, que por outro lado, pode ser manejada com uma abordagem nutricional adequada.
Alguns dados da literatura científica demonstram que a caquexia é um fator prognóstico negativo, pois está correlacionada com menor tempo de sobrevida, maior risco de intercorrências durante cirurgias, redução da resposta à quimioterapia e baixa tolerância ao tratamento. Na verdade, independente de qual for a doença, a condição corporal adequada tem relação com maior tempo de sobrevida, melhor prognóstico e outras variáveis positivas.
O que é Caquexia do Câncer? (etimologia grega: "kakos"= ruim "hexis"= condição)
A caquexia do câncer é uma síndrome paraneoplásica (uma das mais observadas em cães e gatos com câncer, talvez ficando atrás somente das síndromes hematológica e hipercalcêmica), ou seja, é caracterizada por várias alterações clínicas provocadas pela presença da neoplasia maligna: perda de peso progressiva com perda muscular, perda de apetite, fadiga, náuseas e anemia (as de maior relevância clínica em relação a debilidade física), além de hipoalbuminemia, miopatia, hiperlactatemia, hiperglicemia e intolerância à glicose. Ela acontece devido a mecanismos primários relacionados ao câncer:
- aumento da produção de citocinas inflamatórias;
- alterações no metabolismo de nutrientes;
- alterações na regulação hormonal do apetite.
Mas também ocorre secundariamente por efeito colateral do tratamento e pela presença do tumor e realização de cirurgias no trato gastrointestinal:
Anorexia/Hiporexia
É o fator que mais contribui para a caquexia (na literatura médica a caquexia do câncer é referida como Síndrome Anorexia-Caquexia do Cancêr). Por isso, a capacidade de reconhecimento da anorexia/hiporexia e sua intervenção precoce estão diretamente relacionadas com um manejo mais eficaz da caquexia do câncer. Para reconhecer a anorexia/hiporexia, é preciso avaliar a ingestão calórica diária do paciente, ou seja, o quanto ele realmente está comendo (quando o veterinário questiona sobre o apetite, o tutor entende que comer apenas um pouco de ração ou um pedaço de frango e uma colher de arroz é igual a "ele(a) está comendo"). Uma avaliação rápida disso pode ser feita pelo cálculo: NEB (kcal)= 70 x PC0,75 (necessidade energética basal: isso é o mínimo que o animal deveria estar ingerindo diariamente)*.
*Ou seja, se um cão de 10kg que deveria ingerir 394 kcal ou 100 gramas de uma ração com 3,9 kcal de energia metabolizável/grama estiver comendo apenas 40 gramas por dia, já pode ser o suficiente para o tutor dizer que "ele(a) está comendo".
Por isso a importância de questionar melhor o tutor sobre o apetite do animal: "Quanto de ração ou comida ele(a) está comendo (em gramas)?".
Perda de peso e de massa muscular
Se na prática conseguirmos estabilizar o peso do paciente, significa que de alguma forma conseguimos atenuar as alterações metabólicas que o câncer provoca. Nesse contexto, avaliar o ECC (escore de condição corporal), EMM (escore de massa muscular) e as alterações de peso corporal a cada atendimento/sessão quimioterápica é de importância indiscutível no monitoramento do paciente oncológico.
Qual a importância da Condição Corporal?
A literatura médica demonstra que 20% dos óbitos em pessoas com câncer são causados pela caquexia. Os dados científicos sobre isso na medicina veterinária são escassos, mas dois estudos evidenciaram que de fato a má condição corporal é fator prognóstico negativo também para cães e gatos:
Conclusão: os cães com linfoma que estavam com baixo ECC no momento do diagnóstico tiveram menor tempo de sobrevida em comparação aos que estavam no peso ideal ou acima do peso.
Conclusão: os gatos com baixo ECC tiveram 13,4 meses a menos de tempo de sobrevida que os gatos com ECC ≥ 5/9.
Conclusão e Reflexões...
A partir dessa breve abordagem sobre a caquexia do câncer, é possível refletir um pouco sobre algumas questões:
- Estamos atentos ao estado nutricional dos nossos pacientes? Vários fatores influenciam na resposta terapêutica e na qualidade de vida do paciente oncológico além da caquexia, como o tipo e estágio da neoplasia e a presença de comorbidades. Se pensarmos não na cura, mas em relação a aumentar o tempo de sobrevida com qualidade de vida, obter sucesso no tratamento do câncer ainda é um desafio para o médico veterinário. Visto que a caquexia influencia negativamente tudo isso, podemos nos treinar a olhar o paciente como um todo com mais cuidado. Isso nos possibilitará intervir na hiporexia/anorexia e na perda de peso o mais precocemente possível e inibir ou retardar a progressão da caquexia.
- Por que não informar e incentivar o tutor sobre o acompanhamento nutricional durante o tratamento oncológico? Além da garantia de ingestão calórica adequada, a composição da dieta é outro fator que influencia na estabilização do peso e na caquexia do câncer. Aqui também se encaixam alguns nutracêuticos (ácidos graxos ômega-3, curcumina e antioxidantes) que podem ser benéficos para a caquexia. Então, por que não encaminhar o paciente para um Nutrólogo desde o diagnóstico de câncer?
- Nem todos os animais estão em caquexia/anorexia/hiporexia no momento do diagnóstico de neoplasia, alguns até estão acima do peso. Devemos emagrecer os pacientes com sobrepeso ou obesos, visto que a obesidade provoca diversas consequências negativas? Na minha opinião não. Na verdade, o ECC alto ( > 5/9) tem ''efeito protetor'' e não é necessariamente indesejável quando se trata de um animal com câncer.
- Talvez melhorar a condição nutricional do paciente antes da quimioterapia não seria interessante? Essa é uma questão mais complexa, pois sabemos que alguns tumores são mais agressivos que outros e que, quanto mais cedo iniciar o tratamento, maiores a chances de sucesso. Está ai uma discussão a ser levantada na abordagem multidisciplinar do paciente concológico.
Se quiserem compartilhar mais reflexões sobre esse tema, ideias ou sugestões, fiquem à vontade!
Até a próxima! :*



Muito bom artigo!
ResponderExcluirO acompanhamento nutricional do paciente com câncer no momento diagnóstico é essencial. Tenho excelentes resultados. Uma dúvida, quando se trata se antioxidantes, a terapia é através do próprio alimentos ou medicamentos específicos? poderia comentar algo sobre.
Oi Aline! Obrigada pelo compartilhamento! Você pode utilizar suplementos específicos de vitamina E (antioxidante mais utilizado na prática) na dose de 10 mg/kg para garantir uma boa quantidade terapêutica de antioxidante que, dependendo da dieta, não seria garantida. Estou escrevendo uma postagem sobre antioxidantes e câncer, que ainda é um debate, se quiser dar uma lida para saber mais sobre o assunto postarei hoje! Beijos!
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