Antioxidantes na Quimioterapia: Ajuda ou Atrapalha?

Uma análise sobre se há benefícios ou não suplementar antioxidantes em animais com câncer.

        Em condições de saúde, o organismo se apresenta em estado de homeostase redox (equilíbrio entre reações de oxidação e redução), que é essencial para as funções fisiológicas. No organismo doente, de um modo geral, prevalecem as reações de oxidação, que levam à maior produção de radicais livres com consequente acúmulo e, portanto, estresse oxidativo. O estresse oxidativo causa danos ao material genético, o que contribui para a carcinogênese. É por esta razão que cogitamos utilizar a suplementação de antioxidantes (AOX) em pacientes com câncer.
        A literatura científica demostra que, de fato, o status oxidativo e antioxidante de animais com vários tipos de câncer é diferente do de animais saudáveis. Isso quer dizer que, além dos biomarcadores de estresse oxidativo estarem aumentados nesses pacientes, os de capacidade antioxidante também estão elevados em resposta à produção excessiva de radicais livres. Adicionalmente, por via de regra, ambas quimio e radioterapia têm como princípio produzir apoptose da célula neoplásica mediante danos oxidativos e geração de radicais livres. O ponto é que o mesmo processo ocorre com as células do hospedeiro, provocando efeitos colaterais que afetam negativamente o animal.

        Nosso objetivo com a suplementação de AOX, então, seria aumentar a tolerância dos pacientes ao tratamento antineoplásico visando a atenuação dos efeitos colaterais, dentre eles a caquexia secundária (anorexia, perda de peso, náusea e vômitos), como vimos na última postagem do Blog. Entretanto, ainda não existe um consenso que recomende suplementar AOX em pacientes oncológicos sob quimioterapia. Essa é uma dúvida constante que eu mesma tenho ao atender um caso oncológico, pois existem vários fatores que influenciam nessa decisão
  1. Já que os quimioterápicos agem mediante danos oxidativos nas células tumorais, o uso de AOX não poderia neutralizar os radicais livres e reduzir a eficácia do protocolo?
  2. Devido à variedade de compostos antioxidantes, a forma como eles interagem com os diversos protocolos terapêuticos pode ser generalizada?
  3. Seria sempre necessário suplementar AOX em casos oncológicos?
  4. A suplementação de AOX é imprescindível em pacientes com câncer?
        Apesar de haverem controvérsias na literatura em relação a esses fatores, na prática é interessante sim utilizar esse tipo de suplementação, que é sustentada pela seguinte meta-análise de 19 ensaios clínicos randomizados e controlados, publicada na literatura médica em 2007:    
➥ Não houveram relatos de redução da eficácia dos protocolos quimioterápicos, mas relatos de maior tempo de sobrevida, maior resposta tumoral e menos toxicidade do tratamento quando comparado aos controles;
E por este estudo clínico de 2011 que avaliou o efeito de alguns AOX (vitaminas A, E e C) em cadelas com carcinoma mamário sob tratamento com epirrubicina e ciclofosfamida, quimioterápicos que possuem ação mediada por radicais livres: 
A suplementação reduziu os efeitos colaterais do tratamento quimioterápico.   
        
        Ainda são necessários mais estudos controlados na veterinária para estabelecer um consenso sobre esse tema. Por enquanto, o que podemos fazer é considerar alguns pontos enquanto recomendados o uso da suplementação de AOX em pacientes sob quimioterapia, respondendo às questões anteriores:
  1. Depende, a resposta requer o conhecimento dos mecanismos de ação de cada fármaco quimioterápico.
  2. Não, é necessário conhecer mais também sobre os mecanismos de ação dos diversos AOX visando o desenvolvimento de formulações específicas.
  3. Na teoria provavelmente sim, mas e na prática? Talvez seja necessária a determinação de parâmetros de normalidade para se identificar quando é preciso suplementar.
  4. Para essa pergunta, que na minha opinião vale para qualquer nutracêutico, a resposta é depende. A base do manejo nutricional é a dieta completa e balanceada comercial ou caseira, é a "comida de verdade". Ou seja, é a garantia do suprimento da necessidade calórica e nutricional que sustenta a nutrição do paciente oncológico. Os AOX e outros nutracêuticos são complementos que tornam o seu uso mais adequado quando a nutrição básica do paciente já está garantida.
        Caso tenham mais dúvidas sobre esse tema e saibam de mais trabalhos recentes que debatem essas questões e queiram compartilhar, fiquem à vontade que será de grande valia! Isto também vale para sugestões de temas que gostariam que eu abordasse por aqui!

Até a próxima! :*

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